Insana Coincidência

Minha cabeça pode não estar tão boa, mas meus ouvidos continuam funcionando bem. Ao escutar o sininho da porta balançar, diminuí a temperatura do forno e fui até o balcão ver quem chegara. Com um batom cor de sangue nos lábios e um perfume barato de jasmim que se confundia com o aroma do bolo que saía da cozinha, se aproximou, colocou uma bolsa preta de couro desgastada no balcão e sentou-se no banco. Em silêncio, olhava para o nada. Parecia hipnotizada. Angustiado, desejei-lhe bom dia. Ela, ainda com o olhar perdido, começou a falar.

 

– Por onde eu passava, todos me olhavam. Vários homens queriam me namorar. As mulheres tentavam se vestir como eu. Eu era a beleza em seu estado humano. Sim, eu garanto. Olha esta foto minha – disse tirando um pedaço de papel desgastado de sua bolsa – Não vê? Eu era perfeita! Essa sou eu logo depois de completar meus vinte e cinco anos. Foi um dia muito especial. Sabe, eu tenho a sensação de que as pessoas mais bonitas são as que mais sofrem com as mãos do tempo. Eu tinha tudo. Por muito tempo, eu pude ter as roupas, os perfumes, as joias. Tudo o que eu desejava chegava até mim. Sem qualquer esforço.

 

Agora, abraçando a bolsa em seu colo, voltou a fixar aquele olhar sem fôlego no vazio. Vivia de trapos que sobraram de um passado de regalias, riqueza e beleza. Talvez ela jamais tivesse imaginado que um dia estaria sentada no balcão de um bar qualquer no centro da cidade, cheio de bêbados, prostitutas e pedintes. Que ironia, o meu bar.

 

Rompi o silêncio numa tentativa de capturar aqueles olhos acinzentados que se concentravam num mundo que só ela tinha o poder de aterrissar.

 

– Precisa de alguma coisa?

– Ser amada. Preciso de alguém que me trate como eu mereça. Queria tanto me sentir única de novo. Quero viver em paz. Eu quero também um whisky.

 

Peguei uma garrafa empoeirada no fundo da prateleira. Voltei até ela com o copo, o dosador e a garrava.

 

– Eu jamais me imaginei bebendo isso aí. Meu Deus! Eu já disse, né? Eu tinha tudo o que eu queria. Ele me dava tudo, só não me dava amor, mas eu nem me importava com isso. Foda-se o amor! Eu gostava era dos presentes e não da presença dele, que inclusive me causava asco. Eu nunca gostei daquele homem. Sem gelo por favor – disse cuspindo o chiclete em um guardanapo. Foi na merda desta cidade, onde o sol frita a cabeça das pessoas e leva embora a sanidade, que minha desgraça começou. Eu juro, eu juro que não fui a culpada – falou intercalando entre um gole e outro e borrando a borda do copo com aquele batom cor de sangue.

 

Eu apenas a escutava e a observava admirando aquele ser angustiado e vazio. Restava ali um corpo desajustado, embriagado, insano, decadente. Ela ainda não olhava para mim. Parecia não se importar. A verdade é que ela nunca se importou. Qualquer pessoa bastaria para ser plateia daquela cena decadente em que estava atuando. Enquanto isso, o aroma de jasmim foi sendo trocado pelo cheiro de queimado que o vento trazia da cozinha. Lembrei-me do forno e corri até lá.

 

O bolo estava perdido. Na verdade, tudo ali estava perdido. Por um instante, pensei que aquilo poderia ser mais uma ilusão da minha cabeça, que também andava perdida. “Como ela poderia ser tão egoísta assim?”, pensei enquanto voltava ao balcão. Naquela era a hora, eu estava mais decidido do que em todo o meu passado medíocre e frustrado. Apertei minhas mãos contra suas bochechas e agarrei violentamente aquele olhar perdido. Ficamos cara a cara.

 

― Está vendo meu rosto? Olha só quantas linhas, manchas, verrugas... Todas elas vieram com o tempo. E sabe o que eu aprendi com tudo isso? Que durante nossa estadia nesse mundo a gente se machuca muito, mas também se cura. Só que toda cura deixa uma cicatriz. E depois que gente se cura, a gente se machuca de novo. De novo, de novo, de novo... No fim das contas, aquele rosto jovem se transforma naquilo que somos de verdade e carrega todas as cicatrizes causadas pelos nossos acertos e erros. Não, Delmira, não são as mãos do tempo que nos destroem, somos nós mesmos e contra isso não há o que fazer. Agora, eu sinto muito, do fundo do meu coração que até fede de tão podre, que você também tenha ficado cheia de marcas não só no rosto, mas por dentro. Assim como eu. Você não aprendeu. Vai terminar sem aprender. Nossas vidas foram uma desgraça. Seu casamento infeliz e minha solidão miserável. Está me vendo, Delmira? Se lembra de mim? Este sou eu de verdade.

 

Acredito que aquela foi a última vez que a vi. Enquanto segurava seu rosto, pude tocar seus soluços de angústia. Um beijo em seus lábios de sangue me fez sentir todo o sal daquela infelicidade que transbordava de nossos olhos. Afastamo-nos. Nossas almas jamais chegariam tão perto de novo. Sem dizer nada, deu-me as costas e partiu como sempre fez. Lembrei-me do bolo. Estava perdido.

Comentários