Rosa

22 de maio de 2020


Era como uma rosa, daquelas vermelhas bem escuras. Estava úmida e exalava um pus a cada vez que ela coçava com suas garras cheias de terra por baixo. A dor que sentia era o equivalente a uma faca sendo enfiada em sua perna a cada minuto. Seus olhos vermelhos escancaravam a falta de uma noite de sono digna. Sono? Não sabia mais o que era encostar a cabeça em alguma coisa por vontade própria. Fechava os olhos apenas quando, sem forças para continuar, desfalecia em qualquer canto daquela cidade grande para muitos e extremamente pequena para ela, já que há tempos não encontrava espaço para se sentir viva.

Os poucos que notavam sua presença davam-lhe moedas ou restos de comida, mas não a resposta que queria ouvir. Sabia que quando lhe apontassem a direção até ele sairia daquela miséria. Dizia-se fraca, mas não chorava. A única vez que se lembra de ter deixado algumas poucas lágrimas desprenderem de seus olhos foi quando(...). Chorar para ela era sinônimo de fraqueza. Não queria mostrar a ninguém que era fraca.

Naquele dia, depois de quase ter seu corpo levado pela forte enxurrada, escondeu-se num terreno baldio e íngreme escondido próximo a uma avenida movimentada. Tantos carros passavam por ali. Tanta pressa, tanta vida acontecendo e ela parada, pensando consigo mesma se talvez ele também não passou por ali. A rosa em sua perna doeu tanto que pesou em seus olhos. Tentou lutar, mas era tarde. A dor era mais forte. “Vou encontrá-lo. Ele não deve estar longe”, pensou pela última vez.


11 de junho de 2010

O calor das panelas no fogo a deixava tonta, mas o suor frio de sentir a presença dele era muito pior. Ao ouvir seus passos, correu para diminuir o som do pequeno rádio que deixava em cima da geladeira. Ele entrara pelos fundos, sempre que chegava por lá era porque trazia sacos de verduras e legumes que sobravam da feira. Após algumas uma ou duas músicas do rádio, ele entrou sem nem desejar bom dia ou ao menos olhar em seus olhos. Disse que deixara o saco com as sobras no tanque e pediu para que ela olhasse se poderia aproveitar algo.

Agora, enquanto fatiava uma cebola, escutou o grito do homem, “Desgraçado!”. Seu coração acelerou e suas mãos esfriaram. Não sabia que o filho também estava em casa. Temia o encontro dos dois. Desligou o rádio e correu até o quarto. O filho já não estava mais lá. Havia ódio no olhar do homem. Ao perguntar o que acontecera ali, recebeu como resposta um soco. Não era a primeira vez, mas aquela seria a última. “É a última”, pensou. A passos calmos, deu as costas ao homem e voltou à cozinha.

Respirava fundo. Voltou e continuou a cortar a cebola. Chorou. Sentiu-se fraca. Abraçou sua fraqueza. Assumiu-a. Gritou. Gritou como nunca havia gritado em toda sua vida miserável ao lado dele. Descabelou-se. Berrava sem parar. O homem se aproximou violentamente. A panela de pressão que estava no fogo acompanhou seus gritos e juntas, extravasaram-se. No meio do estrago, jogou a faca no chão e correu. Decidiu ir atrás do filho. “Vou encontrá-lo. Ele não deve estar longe”, pensou.


6 de novembro de 1995

Naquele domingo, o sol parecia brilhar mais do que nunca. Alguns raios batiam nos olhos dele e todo aquele azul a deixava ainda mais apaixonada. Sentia um calafrio viajando pelo seu corpo a cada toque e a cada beijo. Um menino caminhou em direção aos dois com uma cesta carregada de rosas, daquelas vermelhas bem escuras. O homem arrancou algumas moedas do bolso de trás da calça, deu ao menino e retirou uma. Estava úmida e exalava um perfume sem nem precisar aproximá-la ao nariz. Pegando na mão da mulher, ele disse:

― Quer se casar comigo?

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