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Onde está o direito de resposta?

Estamos vivendo num tempo de escuridão. Incertezas. Tempo também de acerto de contas, mas eu me questiono toda vez se quem está fazendo estes tais acertos de contas está realmente com a razão. É mesmo justa a justiça dos justos? Até que ponto são verdadeiras as desculpas e arrependimentos dos que estão errando a todo instante? Um jovem foi morto num supermercado após ser sufocado por um segurança. Uma cidade inteira foi apagada pela lama de uma empresa mineradora. Um homem preto foi agredido, injustamente, numa agência bancária. Está tudo aí. Deu na TV, deu no jornal, deu na Internet. Já deu. E há um bom tempo. Quando penso nesses casos (e em milhões de outros) lembro-me que essas empresas costumam lançar notas cheias de pesares, cheias de arrependimentos. Cheias de si. E para todo erro existe sempre uma desculpa. E as vítimas? Quando elas terão o direito de se pronunciar? – Se é que estarão vivas para isso.

Uma nota de arrependimento sobre o amor

Até pouco tempo atrás eu não entendia o que era amor. E o pior, fazia de tudo para dizer que não acreditava nisso, afinal, aquilo que algumas pessoas não entendem, muitas vezes, no lugar de tentar compreender, apenas criticam. “Amor? Não. Isso não existe. Na verdade, o que vocês chamam de amor é um negócio, um toma-lá-dá-cá.”, eu dizia para meus amigos que viviam se apaixonando. Eles ficavam assustados. E até ofendidos. Diziam que um dia eu saberia o que era. Eis que o dia chegou, mas esses amigos andam tão distantes ultimamente que vou me aproveitar do espaço que tenho para escrever essa crônica e dizer a eles que sim, eu conheci o amor. Não estou falando daquele amor familiar, isso para mim é outro assunto. Eu amei uma pessoa. Eu A-M-E-I. E sofri. Sim. Sofri de amor. O amor não só existe, como também nos faz sofrer. Senti-me na obrigação de me justificar. Antes, com toda certeza, eu escreveria essa crônica apenas para comprovar com mais...

É por ele

Quando Regina acordou, sua cama estava molhada e fedendo a mofo. Dormiu um sono tão pesado, que só percebeu a janela aberta quando seu pequeno e velho despertador de corda, que ficava ao lado de sua cama, tocou. O vento era frio, mas seu coração estava bem mais, o suficiente para ignorar toda aquela situação. Levantou-se, fechou a janela e lembrou-se dele. Precisava ser forte. Era por ele. Tudo para ele. Assim que tirou os lençóis molhados da cama, despiu-se e foi tomar um banho quente. Sabendo que esse poderia ser o momento mais íntimo e luxuoso do seu dia, demorou um pouco mais. Não foi preciso escolher a roupa. Vestido rosa, salto alto vermelho e um batom bege nos lábios. Não era o que queria, mas precisava. Era por ele. Pronta, foi até o quarto do filho e sentou-se ao seu lado. Num colchão improvisado, cheio de lençóis e tapetes sobrepostos, ele dormia como um pequeno cãozinho que acabara de mamar. Apertando a mãozinha que repousava sobre sua barriga, deu um beijo em sua testa. Dev...

Duzentos e noventa e nove mil novecentos e noventa e nove

Acordo fechado. Ansiedade confirmadíssima. Eu já fazia mil planos. Parecia até que ganharia na loteria. Olha, eu amo minha companhia, mas com você do meu lado eu ficaria muito melhor. Passei então a contar os dias. Meu calendário começou a me provocar. Decidiu não contribuir. Fazia questão de retardar o nosso encontro. Culpo ele. E culpo ele por tudo. Calma, você vai entender. Chegou o dia. Parecia mentira. Eu ali. Você do meu lado. Enquanto você dormia, eu imaginava mil coisas. Imaginava os mil caminhos que poderíamos viver durante todos dias que o futuro tinha reservado para nós dois. Estava tudo lindo até o calendário voltar a me provocar. Se antes retardava o tempo que levaria para nos encontrarmos, agora decidira acelerar nossos dias juntos. E não foi o bastante. Passado os dias, ele excluiu você de todos os dias futuros da minha vida. Hoje não conto os dias para te ver. Conto com a sorte de novos dias. Parece que foi ontem que, cheio de empolgação, enviei aquela mensagem empolgad...

A mancha que não sai

Aconteceu de um jeito inesperado. Você ali me achando louco. Eu ali te achando único. Pode ser, vai. Eu estava meio louco mesmo. Afinal, eu estava perdido, mas você estava em casa. Eu te olhava. Você se esquivava. A música alta me excitava. Você me excitava. Não. Eu não estava tão louco assim quando me dei conta de que queria você. Estava certo de que era você. Teria que ser você. Só você me faria bem naquela hora. E aquela hora virou dias. Meses. Tudo contribuía para que fôssemos muito mais do que os outros julgavam. Sim. Nos julgaram. Eles julgam todos. Com nós dois não foi diferente. E o pior: não escapamos. Nosso julgamento foi até à última instância. A decisão coube a mim. Você não compareceu. Sua defesa não compareceu. A minha defesa estava em peso. Me senti um peso. O clima pesou. Entre acordos, beijos, receios, desejos, ódios e medos, eu te matei. Eu me sangrei. Uma dor tomou conta de mim. Tentei esconder seu corpo. Tentei esconder tudo. Eu tentei me esconder. Você se levantou ...

Mão esquerda na água da fonte

Eu estou o tempo todo preocupado. Tentando ajustar as coisas. Marcando e desmarcando compromissos. Anotando tudo em bloquinhos de papel e torcendo sempre para eles não se perderem no meio das minhas coisas. Sim, mesmo sendo organizado, eu faço bagunça. Além de querer ter um controle imenso sobre minha vida, eu tenho uma certa mania de limpeza. Na mochila eu sempre levo um sabonete especial para mãos secas, uma toalha que fica dentro de uma bolsinha de plástico e uma bisnaguinha de álcool gel. Um dia acordei mais cedo que o normal. Como estava adiantado, resolvi dar uma caminhada no parque. Fazia muito tempo que eu estava sem praticar atividades físicas. Decidi não levar minha mochila. Achei que ela me incomodaria. Talvez sim, mas preferi arriscar. Enquanto caminhava, um morador de rua passou por mim e pegou em minha mão esquerda. Meu desespero aumentou. Fiquei enojado. Para piorar, estava sem meu kit higiênico. Não podia me limpar. Naquela hora, qualquer coisa para mim era mais limpa d...

Carta de uma Mulher (Exageradamente) à Beira da Morte

Todo mundo quer ser feliz. É unânime. Nem que seja por um momento. Todo mundo quer realizar algum desejo. Todo mundo quer se satisfazer. Eu sou humana. Eu sinto. Eu tenho vontades. Vou confessar uma coisa: dentre todos os meus desejos, o de ter ele nos meus braços é o que mais quero. Que exagerada. Você deve estar pensando. Pelo amor de Deus. Eu já disse que sou humana. É uma condição. Eu preciso. Agora. Eu morro todos os dias sem ele aqui do meu lado. Quem é ele? Deixa eu contar pra você. Eu tenho certeza que vai entender. Eu estava no ponto de ônibus esperando para voltar para casa. Chovia. Cada um segurava seu guarda-chuva. – Boa noite – escutei uma voz atrás de mim. – Boa noite – respondi sem olhar para ele. Eu pensei ironicamente "tudo o que preciso nesse momento é de um homem mexendo comigo no ponto de ônibus". – Pode me ajudar, por favor? – a voz pareceu insegura. Não tive escolha. Olhei. Vou morrer arrependida de ter olhado para ele. Sim. Dizem que a gente não escolhe...

Está chegando o verão

Verão de chuva. Verão de mudanças. Verão de fim de ano. Verão de ano novo. Verão das águas de março. Os que ainda vão nascer nessa terra tropical o verão. Verão chuva. Verão mudanças. Verão fim de ano. Verão ano novo. Verão águas de março. Ah! Eles vão amar o nosso verão!

A pessoa mais insuportável que eu já conheci em toda minha vida

Eu odeio o vento daquele lugar. Ele sabe disso. E eu tenho certeza que esse foi o motivo de ele ter marcado esse encontro lá. Eu já iria começar a discussão perdendo, afinal, eu não ficaria confortável com o vento. Xeque-mate. Mas eu iria dar a volta por cima. Decidi que o isso não iria me abalar. Parece pouco, mas realmente odeio o vento que faz no alto do Convento da Penha. De verdade. Poxa, tantos lugares nessa cidade para marcar uma conversa. Respirei fundo ao ler a mensagem. Respondi apenas com um OK. Ele odiava. Nos últimos dias era assim. Um provocava o outro sem parar. Não é por nada não, mas eu estava bom de argumento. Se fosse uma competição, minha vitória era garantida. Mas não era. Era vida real mesmo. Era um relacionamento em crise. Era uma vez um casal feliz que se conheceu no início da primavera passada. Cheguei. Chegamos. Eu não disse nem oi. Comecei no ataque. – Por que aqui? – pergunte...

Menina do céu

Foi assim, eu queria um pouquinho de paz. Caminhei até a estação Botafogo e peguei um metrô. Desci em Copacabana. O tempo não era dos melhores. Ventava muito, mas o calor era aquele bem carioca mesmo. Fui em direção à praia, parei num quiosque em frente ao Copacabana Palace. Pedi uma cerveja. Depois de uns cinco minutos apreciando a vista, a cerveja e evitando os vendedores de amendoim, uma mulher chegou com várias sacolas. –  Pastel de carne com queijo!  – gritou para o garçom. Pendurou as sacolas nas cadeiras e se sentou. Pegou seu celular. Aí começou. –  Menina do céu! Foi horroroso! Foi um barraco. Daqueles bem feios. Quando ela viu que não tinha ninguém do seu lado, aceitou a derrota. Foi embora! Ah! Você acha mesmo? É claro que ela não ia esquecer aquela bolsa! Saiu com ela entre as pernas. Mas levou. Foi a bolsa no lugar do rabo. Rabo entre as pernas! Modo de dizer, Elisa. Entendeu? Mas, então, menina. Você precisava ver a cara do homem. Se é que tinha cara. O cara...